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Histórico

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UM POUCO DA HISTÓRIA DO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ENTOMOLOGIA

Texto extraído de palestra proferida por Renato C. Marinoni, em 24 de setembro de 2009, durante as comemorações do 40º aniversário do início do curso de pós-graduação em Ciências Biológicas- Entomologia da Universidade Federal do Paraná.

Para que melhor se compreenda em quais bases se constituiu o curso, convém dar uma passada pela vida do Departamento de Zoologia nos anos que antecederam a sua criação.

Primeiramente, a denominação de Departamento ainda não era oficial, pois não havia ainda se consolidado a reforma universitária, produto das leis promulgadas pelo governo federal, que viria a ser iniciada em 1968 e implantada totalmente na Universidade Federal do Paraná apenas em 1972. Mas esta denominação – Departamento – era imposta pelo Padre Jesus Santiago Moure, então Catedrático da Cadeira de Zoologia que, vindo de uma série de viagens de estudos pelo exterior, principalmente Estados Unidos, tentava enquadrar a sua cátedra dentro dos padrões universitários dos países por ele visitados. Foi esta sua visão das universidades dos países desenvolvidos que o impulsionou para transformar a sua cátedra num Departamento, envolvendo as demais áreas afins da zoologia e entomologia das então diferentes faculdades que formavam a Universidade Federal do Paraná.

Não se estará fugindo à verdade se for dito que um dos elementos fundamentais no desenvolvimento da entomologia, pelo incentivo e apoio que prestou ao Padre Moure, e que o levou para um período de pesquisas e estudos em sua instituição, foi o Dr. Charles D. Michener, professor da Universidade de Kansas, com conceito internacional muito alto.

Mas, enquanto não se apresentavam os meios para que fosse criado o Departamento, e se desenvolvesse dentro de estrutura mais ágil e moderna, o Padre Moure procurava desenvolver o ensino e a pesquisa dentro da Cátedra de Zoologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.

Desde meados da década de 50, além do Padre Moure que lecionava Chordata e pesquisava Apoidea: Hymenoptera, a Cátedra contava com os professores Hans Jakobi, que lecionava Fisiologia Animal e pesquisava Copepoda: Crustacea; Jayme de Loyola e Silva ministrava Invertebrata e pesquisava Isopoda: Crustacea; Bernadete Lucas de Oliveira e Danúncia Urban, que ministravam aulas de Arthropoda, esta última também colaborava com o Padre Moure nas aulas de Chordata.

A Zoologia esteve instalada inicialmente nas dependências do Colégio Santa Maria, à rua XV de Novembro. Migrou posteriormente para a Rua Coronel Dulcídio (hoje Departamento de Música e Artes Visuais), dali para o 9º andar do Edifício Dom Pedro I, na Rua General Carneiro, junto à Reitoria da Universidade, onde o curso foi gestado; até chegar ao atual Bloco da Zoologia do Setor de Ciências Biológicas, no Centro Politécnico, em 1978, depois de ter passado pelo prédio do ex-Colégio Sacre Coeur Du Marie, na antiga BR 116.

Em seu esforço para o desenvolvimento da pesquisa zoológica, o Padre Moure obteve recursos de instituições nacionais e estrangeiras, que propiciavam condições para a melhoria do equipamento e da biblioteca, naquela época um patrimônio fundamentalmente pertencente à Cátedra.

De instituições como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (então Conselho Nacional de Pesquisas) (CNPq) vieram o apoio para o aumento do quadro de professores e pagamento do chamado tempo integral, que começou com a admissão, em 1963, do então ainda aluno da Licenciatura em História Natural, mas já Bacharel, Vinalto Graf, que iniciava suas pesquisas em Apoidea. Além do CNPq foi fundamental para o aumento do quadro de pesquisadores, o Conselho de Pesquisas da Universidade Federal do Paraná, à época dirigido pelo eminente Professor Brasil Pinheiro Machado. Foi destas duas instituições que vieram recursos para admissão de Renato C. Marinoni, Albino M. Sakakibara, Sebastião Laroca, Luiz Bosco Azevedo, Takashi Dairiki.

Em 1966, através da CADIFF (Coordenação de Apoio ao Desenvolvimento Institucional das Faculdades de Filosofia), constituída pelo governo federal para promover a formação de cursos de curta duração para o magistério, abriu-se a oportunidade para a passagem de Renato C. Marinoni e Albino M. Sakakibara, que estudavam Coleoptera e Homoptera (Insecta), respectivamente, para o corpo docente, na condição de Auxiliares de Ensino. Nesta época, Olaf H. H. Mielke começou a trabalhar no Departamento, continuando os seus estudos em Hesperiidae, Lepidoptera, iniciados no Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

O aumento de pesquisadores na área de entomologia fazia parte do projeto do Departamento para criar condições para desenvolver estudos pós-graduados, que havia começado com os esforços para a implantação do Centro de Treinamento de Entomologistas. Dentro desta perspectiva de desenvolvimento eram solicitados recursos à CAPES, ao CNPq, e Conselho de Pesquisas da UFPR e fundações estrangeiras como a Rockefeller Foundation. Com o aporte de recursos dessas instituições realizaram-se os primeiros cursos de extensão, já com nível pós-graduado em Entomologia. Um deles em janeiro-fevereiro de 1965, sobre Dípteros de Interesse Agrícola, Médico e Veterinário, ministrado por Paulo Iide; o outro, sobre Técnicas de Coleta e Métodos de Captura de Insetos, ministrado pelo Coronel Moacir Alvarenga, em janeiro de 1966; e em janeiro de 1967, A. Willink, da Universidade de Tucumán, Argentina, ministrou um curso sobre Hymenoptera Parasitica.

É importante lembrar que, além dos professores e pesquisadores já citados, houve um grande número de pesquisadores de renome internacional que aqui permaneceram para estudos por diferentes períodos de tempo, e que ministraram pequenos cursos ou palestras sobre as suas áreas de trabalho. Sem preocupação de data, mas na época que antecedeu e logo após o início do curso, vale lembrar os nomes de Theodore B. Mitchell, da North Caroline University; Haroldo Toro, da Universidad de Valparaiso, no Chile; Paul D. Hurd, da California University; Henry e Margareth Townes, American Institute of Entomology; Owain Westmacott Richards, do Imperial College, de Londres; Shoichi Francisco Sakagami, da Universidade de Hokkaido, no Japão; C. H. Dodson, da Miami University e R. Dresden, da Smithsonian Institution; H. S. Telford; K. L. S. Harley, da CSIRO, da Austrália; Jerome G. Rozen, do American Museum de Nova Iorque; P. H. Sheppard, da Universidade de Liverpool, Inglaterra; da mesma Inglaterra, Victor F. Eastop, que ministrou um curso sobre Aphididae; D. G. Harcourt, do National Research Council, do Canadá, curso sobre Dinâmica de Populações.

Mas, voltando à origem do Curso. Com o aumento do número de professores e pesquisadores; com o intercâmbio que era mantido com instituições e pesquisadores nacionais e internacionais; e com o aumento crescente das publicações científicas (também editava o Boletim da Universidade Federal do Paraná, série Zoologia), o Departamento considerava-se em condições de promover a criação de um curso de Pós-Graduação em Entomologia. Como decorrência do Parecer 977/65, do Conselho Federal de Educação (CFE), e consubstanciado nos decretos presidenciais de 1967 e 1968 (Reforma Universitária), instituí-se a pós-graduação nas universidades brasileiras, através da formação de cursos que deveriam ser reconhecidos pelo Ministério da Educação, por parecer do CFE, que seria o órgão que concederia o credenciamento para funcionamento. O modelo básico estava pautado no sistema norte-americano de ensino pós-graduado.

O Departamento, em 12 de novembro de 1968, mandava um documento à Reitoria apresentando-se como possuidor de condições para se responsabilizar por cursos de pós-graduação em Entomologia e em Zoologia. Em dezembro de 1968, foi criada uma Comissão de Pós-graduação em Ciências Biológicas (COPOCIB) com membros das Cátedras de Zoologia, de Botânica, de Biologia Geral, do Curso de História Natural da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, liderados respectivamente pelos professores Padre Jesus S. Moure, Ralph Hertel e Newton Freire Maia. Reuniam-se para que as diferentes áreas pudessem em conjunto constituir um núcleo que com massa crítica docente, tradição de pesquisa, equipamento e bibliografia adequada demonstrassem condições de obter o reconhecimento oficial. Formularam, então, os processos adaptados às exigências do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) que havia criado normas para reconhecimento das áreas de excelência nas universidades, onde poderiam ser implantados cursos de pós-graduação. Em janeiro de 1969, o processo foi enviado ao CNPq e no mês seguinte, 20 de fevereiro, aquele órgão mandou parecer dando à área de Entomologia a possibilidade de abertura de curso pelo Departamento de Zoologia, visando a formação ao nível de Mestrado em Ciências Biológicas. Em julho de 1969, pelo Parecer 703/69 da Comissão de Pós-graduação do CNPq foi aprovado o Curso de Mestrado em Entomologia e recebeu autorização da Universidade para o início das atividades. Em outubro de 1969, com o curso já funcionando foi enviado um processo ao CFE pedindo o Credenciamento do Curso (protocolo 1761/69).

Na primeira turma, estavam inscritos Albino M. Sakakibara, Álvaro José Gonçalves, Antonio Mário Borba, Bonifácio José Galotti, Irene Silva, Lolita Ritzmann, Olaf H. H. Mielke, Renato C. Marinoni e Sakiko Krygierowicz.

As atividades do curso transcorreram normalmente com os mestrandos devendo obter 45 créditos em disciplinas e mais 15 com a defesa da tese. Os primeiros professores foram Padre Jesus S. Moure, Hans Jakobi, Bernadete Lucas de Oliveira, Danúncia Urban, Jayme de Loyola e Silva, Sylvio Péllico, Sieg Odebrecht, Ennio Luz. Além dos Professores Permanentes do Curso, foi professor do curso o David Galley, do Imperial College, de Londres, que graças a um convênio firmado com o British Council, ministrou aulas de Fisiologia de Insetos e Controle Químico e Biológico de Insetos, durante o ano de 1970, tendo sido substituído por Judith Smith, pelo mesmo convênio, para os anos seguintes até 1974.

As primeiras defesas de Tese no Mestrado (assim chamadas na época) foram em Dezembro de 1971, por Albino M. Sakakibara, Olaf H. H. Mielke, Renato C. Marinoni e Vinalto Graf.

Mas, enquanto o curso tinha o seu transcurso normal, a Universidade vivia uma época conturbada, política e administrativamente em função da Reforma Universitária. Rearranjavam-se as áreas de ensino e pesquisa. Grupos formados pelas antigas faculdades profissionais procuravam manter suas áreas de influência, e conseqüente poder, na estrutura universitária. Os docentes das áreas chamadas básicas de cada uma das faculdades profissionais, onde o espírito de cátedra estava fortemente arraigado, procuravam obstaculizar o processo de integração com os núcleos das demais faculdades. A reforma universitária era contestada pelos rotulados conservadores e progressistas. Aqueles não querendo perder o poder da cátedra, que era o núcleo do sistema universitário, pautado fundamentalmente na universidade francesa; e estes, os progressistas, que mesmo condenando o absolutismo da cátedra, não queriam o sistema que vinha ancorado no estilo americano.

Foi uma época de intensa atividade burocrática. Mais e mais projetos e planos, de ensino, de pesquisa. Em 1971/1972 surgiu o Plano de Desenvolvimento Global (PGD) em que o governo federal buscava elementos para definir estratégias de desenvolvimento para todos os Ministérios de Estado da época. Era simplesmente uma monstruosidade de dados, tabelas, relatórios, etc. a serem levantados e redigidos.

Neste cenário, o processo de reconhecimento do Curso de Entomologia, que corria pelo Conselho Federal de Educação do Ministério de Educação e Cultura, foi extraviado. O Departamento então, independente dos outros cursos, resolveu refazer o pedido de credenciamento de acordo com as novas normas, que levado ao CFE, em maio de 1973, foi protocolado com o número 3479/73. Para avaliar as condições do Curso, aqui estiveram como membros da comissão verificadora, os Professores Doutores José Cândido de Mello Carvalho e Cincinnato Rory Gonçalves. Com o parecer favorável da Comissão, os Cursos de Mestrado e Doutorado em Entomologia foram credenciados pelo CFE, em agosto de 1974, de acordo com o Parecer 2272/74; sendo o de Doutorado o primeiro neste nível da Universidade Federal do Paraná.

Desde então, o curso foi sendo sucessivamente recredenciado, a cada cinco anos, graças às gestões de Albino Morimasa Sakakibara, Zundir Buzzi, Lúcia Massutti de Almeida, Sonia Maria Noemberg Lazzari, Cláudio José Barros de Carvalho, Mário Antonio Navarro da Silva, Gabriel Augusto Rodrigues de Melo e Luciane Marinoni. O processo de recredenciamento que anteriormente era realizado pelo CFE passou para os cuidados da CAPES, e os critérios de avaliação indubitavelmente não são perfeitos, mas vêm sendo melhorados.

Ao longo dos anos, o curso teve muitos orientadores e professores. Alunos que se tornaram professores e orientadores. Professores que vieram de outras cidades e países e, dentre estes, não se pode deixar de citar o nome de Armando Antunes Almeida, responsável pela formação de um grande número de mestres e doutores na área da entomologia agrícola.

Muitos também foram os pesquisadores nacionais e estrangeiros que aqui vieram colaborar ministrando cursos de modo concentrado. Infelizmente não se tem preservado adequadamente a memória do Curso para que aqui se possa estar prestando um tributo de homenagem a todos eles. Dentre os estrangeiros cujas vindas ao Departamento de Zoologia tiveram como objetivo realizar pesquisas e que colaboraram na orientação e formação de mestres e doutores cita-se: Robert D. Gordon que orientou a Lúcia Massutti de Almeida, nos estudos de Coccinellidae; John M. Kingsolver, a Cibele Stramare Ribeiro-Costa, nos estudos de Bruchidae; e Lloyd Knutson, a Luciane Marinoni, nos estudos de Sciomyzidae. Além deles, orientaram alunos e ministraram vários cursos durante vários anos, vindos de outros Departamentos e de outras universidades: Ubirajara Ribeiro Martins de Souza, Nelson Papavero, Sérgio A. Vanin, Cleide Costa, José Roberto P. Parra, José Henrique Guimarães, Carlos H. W. Flechtmann, Joaquim Sena Maia, Antonio Pannizzi, Rubens A. da Cunha, Nelson Bernardi, Dalton S. Amorim.

Como reconhecimento à qualificação do Departamento de Zoologia para gerir pesquisa na área da taxonomia de Insetos, foi que Nelson Papavero, em 1981, ocasião em que era Coordenador do Programa Nacional de Zoologia do CNPq, instou o Departamento a criar um organismo que transferisse este conhecimento para a comunidade, proporcionando a identificação de insetos para fins científicos ou tecnológicos, em atividades agrícolas, florestais ou médico-veterinárias. Reconhecia-se que o Departamento, como conseqüência das atividades do curso de pós-graduação, contava com o maior número de taxônomos no Brasil, em diferentes grupos de insetos, capaz de suprir a demanda daquelas áreas. Contando com o apoio do CNPq e da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), em 1984 foi criado o Centro de Identificação de Insetos Fitófagos. Como decorrência dos recursos advindos, foi possível agregar aos serviços do Centro vários entomólogos mestres recém formados pelo Curso, como Lúcia Massutti de Almeida, Maria Christina de Almeida, Rodney Ramiro Cavichioli, Keti Maria Rocha Zanol, José Ricardo Cure Hakim e Alice Fumi Yamamoto. Os quatro primeiros vieram a ingressar posteriormente no quadro de docentes do Departamento, e a última na Universidade Federal de Minas Gerais. Com recursos dados ao Centro foi possível implantar uma grande reforma nas instalações da coleção de insetos, com equipamentos para a sua organização e manutenção. Em 1985, ainda decorrente das atividades do Centro, foi desenvolvido o projeto Levantamento da Fauna Entomológica do Estado do Paraná (PROFAUPAR), que atuando em oito localidades coletou cerca de cinco milhões de insetos, disponibilizados para a comunidade científica para estudos taxonômicos e ecológicos. Abrigou, então, para as suas atividades os entomólogos Renato Roxo Coutinho Dutra, Rosina Djunko Miyazaki, Nise do Carmo Costacurta e João Baptista Mattos Pacheco.

Mas, sem sombra de dúvida, o que foi fundamental para que o curso de pós-graduação tivesse, ao longo de todos estes anos, sucesso na formação de entomólogos, gerando centenas mestres e doutores, foram os docentes do Departamento que participam ou participaram em algum momento do corpo de professores e orientadores.  Além dos já referidos devem ser citados: Sebastião Laroca, a partir de 1971; Dilma Solange Napp, 1972; Zundir Buzzi, 1972; Germano Henrique Rosado Neto, 1975; Luis Amilton Foerster, 1975; Mirna Martins Casagrande, 1979; Sonia Maria Noemberg Lazzari, 1980; Cláudio José Barros de Carvalho, 1983; Maria Christina de Almeida, 1987; Rodney Ramiro Cavichioli, 1990; Lúcia Massutti de Almeida, 1990; Keti Maria Rocha Zanol, 1990; Cibele Stramare Ribeiro-Costa, 1992; Luciane Marinoni, 1994; Mário Antonio Navarro da Silva, 1996; Gabriel Augusto Rodrigues de Melo, 2000; Márcio Pie, 2008; Maurício Osvaldo Moura, 2009.

E assim aconteceu até esta data.